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Antes de ler este “No chão, o anjo”, eu não sabia que João Antônio, um dos maiores contistas de todos os tempos, aqui e em qualquer outro universo existente, havia louvado o talento de Ivan Castilho, chegando mesmo a premiá-lo num concurso.
Isso ocorreu no princípio dos anos oitenta, a década mágica do roquenrou na Bruzundanga, e serviu de estímulo para a inserção do autor, oito anos depois, na prestigiosa coleção Letras Capixabas, que revelara Sérgio Blank, Bernadette Lyra e Waldo Motta.
Muito menos desconfiava que em “o deus do trovão”, esse seu primeiro e assustador urro sobre os telhados do mundo, já se anunciava o poder de síntese de sua prosa e o olhar inquiridor que esmiúça as glórias e os infortúnios das camadas menos privilegiadas de nossa sociedade, seus dramas mesquinhos, sua graça.
O mais importante: Ivan faz tudo isso sem, em momento algum, incorrer em sociologismos nem pieguices. Escreve com a segurança de quem conhece intimamente o ofício, exibindo apuro na construção frasal e dispensando qualquer convenção inútil da língua que venha a prejudicar o andamento de sua singular música, o ouvido comandando os sentidos numa mistura doce e apimentada de escracho e ternura. Suas narrativas guardam histórias ocultas e demandam do leitor atenção redobrada e entrega, pois dizem muito mais no que deixam de dizer e se encontra apenas sugerido ou implícito.
Como, você me pergunta, atravessei todos esses anos sem conhecer uma literatura tão visceral e poética quanto a de Ivan? Talvez, imagino, devido a baixa tiragem de “o deus do trovão”, a veiculação tímida da editora ou, quem sabe, ao egoísmo de seus primeiros leitores, satisfeitos em manter o autor sob o manto de cult e iguaria para poucos.
Antes de chegar às minhas mãos este “No chão, o anjo”, eu não sabia o quanto o estrelismo, a vaidade chocha, o brilho ofuscante das telinhas e telonas, a banalização e vulgarização das imagens são aspectos contrários ao universo afetivo de Ivan, sendo ele um cara que fez de Guarapari seu refúgio e posto privilegiado de observação.
Do mesmo modo que a Itabira de Drummond, a Curitiba de Dalton Trevisan e a São Francisco dos beats, a cidade capixaba assume em sua ficção ares de protagonista indireta, seja emprestando beleza paradisíaca às memórias de infância e juventude, seja exprimindo a latência de crueldade, violência e horror que cerca a vida natural e idealizada. Em suas praias, passado e presente se mesclam e nem sempre revelam o melhor do ser humano.
O que interessa a Ivan Castilho em Arte — e neste livro se apresenta na plenitude de “um tiro rápido e certeiro como um tubarão radiativo”, conforme ele mesmo qualifica a solução definitiva no conto “suicídio básico” —, passa longe da demonstração boçal de moralidade, cartilha de bons costumes e poses estudadas para agradar o Stablishment.
Não há mais anjos no céu. O poder da grana exterminou cada um deles. Seus heróis, por sua vez, exibem suas dores com orgulho e dignidade. São rebeldes. Querem mais do que lhes foi ofertado. Vagam com asas recolhidas, é verdade, mas não se entregam. Fazem rir. Fazem chorar. Desejam. E, ofensa maior aos algozes, amam.
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Lima Trindade

